Medalha da Abolição: Íntegra do discurso do governador Cid Gomes aos homenageados

26 de Março de 2013

A medalha foi concedida na noite desta segunda-feira (25), no Palácio da Abolição, aos empresários Yolanda Queiroz e Ivens Dias Branco, à jornalista Adísia Sá e ao artista Chico Anysio (in memoriam). Os quatro agraciados de 2013 receberam das mãos do governador Cid Gomes as medalhas e os diplomas referentes às comendas.

 

Discurso do governador Cid Gomes:

 

Há cento e vinte nove anos – naquele 25 de março, o Ceará tornou-se a primeira província brasileira a libertar os escravos. Dessa forma, os cearenses se antecipavam em quatro anos a lei áurea. Eram os primeiros estágios do pioneirismo que marcaria a história do Ceará e que se estenderia até os nossos dias.

Hoje, não há mais escravos para libertar. Ou então, as senzalas mudaram de endereço. É que persistem desigualdades e outras mazelas sociais que tramam contra a nossa liberdade, o nosso desejo e o nosso direito de vivermos em uma sociedade próspera, feliz e solidária.

A medalha da abolição, a mais alta comenda outorgada pelo governo do Estado, vem distinguir aqueles que, nos dias atuais, agem com a mesma coragem e o mesmo ímpeto precursor que inspiravam os abolicionistas no século 19. Os métodos utilizados, nas cruzadas atuais, evidentemente diferem daqueles empregados pela sociedade cearense libertadora, onde transitavam figuras do porte de João Cordeiro, Issac Amaral, Antônio Bezerra, Justiniano de Serpa, Pedro Borges e tantos próceres abolicionistas.

Hoje, o instrumento utilizado para provocar mudanças é o trabalho sério e incansável, é o compromisso social, é a força da inteligência, é a capacidade de produzir e, das mais diferentes formas, contribuir para o avanço social e econômico.

No Ceará, mais do que nunca, é hora de arregaçar as mangas. Atravessamos, em nosso estado e em todo o nordeste, uma quadra de dificuldades impostas pela seca prolongada, que trouxe perdas para a lavoura e a pecuária. Mas não perdemos a esperança nem a capacidade de lutar. Somos cearenses, somos forjados com a têmpera da resistência e, na medida em que os desafios se apresentam, estamos buscando e encontrando soluções.

No último dia 19, consagrado ao nosso São José, o Governo do Estado lançou um pacote de ações voltadas para o abastecimento de água, destinado a atender a mais de 11 mil famílias. As 88 obras previstas envolvem recursos superiores a 39 milhões de reais, sendo esta a maior liberação já autorizada dentro do projeto São José.

O propósito é trazer água de açude, poço, adutora ou até de reservatórios mais distantes para entregá-la àqueles que dela necessitam. Sabemos que, tão logo os sertões sejam abençoados pela chuva, o sertanejo voltará ao campo e recobrará toda a sua inesgotável capacidade de trabalhar e produzir. Ações de convivência com a seca estão sendo executadas pelo Governo do Estado e Governo Federal. Entre elas estão o Eixão das Águas, o Cinturão das Águas do Ceará, adutoras – sendo 95 quilômetros emergenciais para suprir o abastecimento de água em nove municípios -, sistemas de abastecimento de água, barragens e açudes, que vão beneficiar mais de um milhão e duzentas mil pessoas. Essas ações somam quase três bilhões de reais.

Neste momento, o nosso papel é distribuir água de imediato, as sementes na hora certa, a confiança o tempo inteiro. Bem mais que isso, precisamos levar para o interior aqueles benefícios que no passado eram oferecidos apenas na capital – saúde, educação, segurança, habitação e lazer.

Os investimentos que temos feito na área da saúde são ilustrativos desse propósito. Resultam, de fato, de uma decisão política ousada: edificar, no Ceará, a melhor rede de saúde pública do país. Estamos caminhando nessa direção.

São 22 policlínicas, 17 centros de especialidades odontológicas, 32 unidades de pronto atendimento 24 horas. Dois hospitais regionais já foram entregues e estão funcionando – o Hospital Regional do Cariri e o Hospital Regional Norte. Com obras em andamento, temos o Hospital Regional do Sertão Central e em fase de contratação o Hospital Regional Metropolitano. Todos os hospitais do Governo do Estado foram reformados e ampliados.

É nisso que empregamos os recursos arrecadados por meio dos impostos. É para isso que estabelecemos as indispensáveis parcerias.

A política de segurança também exemplifica o modo como encaramos o desafio de governar com equidade, lançando olhar sobre o Ceará inteiro. Embora seja um grande desafio, o elenco de iniciativas vem sendo cumprido com muita determinação com a criação do programa Ronda do Quarteirão, hoje estendido às cidades com mais de 50 mil habitantes; implantação do Pró-Cidadania, que estimula a criação de guardas civis em municípios com menor população; mais que dobramos o número de delegacias – em 2007 eram 44, e de lá pra cá inauguramos mais 50; ampliação dos efetivos das polícias civil e militar; e construção de novas casas de detenção, dentre outras iniciativas.

Podemos assegurar que, em toda a história do Ceará, jamais a segurança pública recebeu tantos recursos e experimentou um reforço tão importante como nos dias atuais.

Por tudo isto, e por muito mais, é tempo de celebrar o mérito e aplaudir os personagens que estão ajudando o Ceará a escrever uma nova história, onde não deve haver capítulos para a miséria, a doença, o desemprego, a triste partida dos retirantes.

Senhoras e senhores, as personalidades distinguidas, em 2013, com a Medalha da Abolição habitam há muito tempo a galeria dos construtores da modernidade cearense. São quatro os agraciados. Três deles aqui estão, em pleno estágio produtivo de sua existência, brindando-nos com sua enriquecedora presença, compartilhando conosco experiências e conhecimentos. Um quarto nome habita o território de nossas saudades.

A professora Adísia Sá e os empresários Ivens Dias Branco e Dona Yolanda Queiroz, com sua própria luz, trazem brilho e prestígio para a honraria que recebem do Governo do Estado – e, com certeza, todos que aqui se encontram – se sentem agraciados por tê-los em nosso meio, oferecendo lições de vida e de entusiasmo, tão necessárias em um país que quer deixar para trás uma crônica secular de subdesenvolvimento e atraso para elevar-se ao patamar das nações desenvolvidas.

Nosso quarto homenageado – o escritor, poeta, humorista, compositor, diretor e artista plástico Chico Anysio – já não se prende a essa dimensão concreta, mas continua extremamente presente em nosso coração. Os mais de 200 personagens que encarnou, durante décadas, em todos os palcos do país, não permitem que sua memória se apague. Chico Anysio partiu somente porque essa era uma diligência necessária para que se eternizasse. Expressão maior do talento e criatividade cearenses, ele se fez merecedor da Medalha da Abolição, que há de receber como mais um gesto de carinho de seu povo.

Nessa noite, aqui se perfila a professora Adísia Sá, uma gigante pela dimensão moral. Presença extremamente enriquecedora na mídia cearense, ela se sobressai pela inteligência, a sagacidade, a sinceridade, a coragem de dizer o que precisa ser dito. Com um pé na sala de aula e o outro no jornal, Adísia pratica um jornalismo pedagógico – de um lado, ensinando seus leitores e ouvintes a enxergar a verdade dos fatos; do outro lado, ensinando seus próprios pares da comunicação a exercer com dignidade e muita ética o nobre ofício de informar, elucidar, comentar e criticar,.

Aqui se apresenta o industrial Ivens Dias Branco, esse filho de imigrante que aprendeu com o pai uma lição eterna: o amor ao trabalho. A construção do conglomerado industrial, que hoje comanda, foi uma caminhada que teve início dos anos 50 e na qual ele empenhou não apenas o talento empresarial, mas também o caráter cortês e a sensibilidade social. Ivens é uma dessas pessoas que, por suas qualidades humanas, souberam conquistar, ao mesmo tempo, respeito e admiração, agregando ao seu patrimônio um imensurável círculo de amizades – provavelmente, o seu maior tesouro.

Aqui também se encontra, recebendo o nosso aplauso e nosso afeto, Dona Yolanda Queiroz. Habituei-me a admirar Dona Yolanda, em primeiro lugar, por sua serenidade e delicadeza, que parecem não ter limites. Mas não perdi de vista aquela mulher muito especial que um dia conheceu Edson Queiroz. Com ele foi feliz, construiu uma ilustre família, e hoje lidera um dos maiores grupos empresariais do país. Discreta e gentil, ela oferece contribuição valiosa para a construção de um mundo melhor. Basta lembrar os vultosos recursos que suas empresas destinam, todos os anos, ao meio ambiente, assistência médico-odontológica, creches e capacitação profissional. Dona Yolanda encarna, com perfeição, o espírito da medalha que hoje recebe.

Meus amigos, assim caminha o Ceará.

As figuras que nessa noite tomam assento no pódium da nossa gratidão são aquelas que protagonizam a nossa história nos dias atuais. E o fazem trabalhando, oferecendo exemplos de dignidade, exercitando a generosidade.

É destes ingredientes que nosso Estado precisa para continuar crescendo mais rapidamente que o resto do país. Vale lembrar que, no ano passado, o PIB do Ceará cresceu quatro vezes mais que o do Brasil. Obtivemos 3,65% de crescimento, enquanto que o Produto Interno Bruto nacional ficou em 0,9%.

Chico Anysio, professora Adísia, Ivens Dias Branco e Dona Yolanda nos mostram caminhos. Vamos, pois, seguir seus passos, acolher suas lições. E aplaudi-los.

Muito Obrigado.